Vovó tinha duas colegas de escola, que tocavam violino. Segundo ela, tocaram lindas melodias num evento escolar. Eram meninas bonitas, bem tratadas, que sempre iam e vinham acompanhadas pelo elegante pai italiano.
Havia nelas uma tristeza que vovó nunca entendia.
O que poderia fazer com que aquelas meninas, raramente brincassem, ou demonstrassem satisfação pela vida? Era um mistério para ela e suas amigas.
Estamos falando de um tempo em torno do ano de 1927, pelas minhas contas. Portanto, para compreender, é preciso viajar no tempo.
Pra dar uma ajuda, vou lembra-los que a moeda corrente da época era Réis. Também foi o ano em que nasceram Tom Jobim e Divaldo Pereira Franco. Ano de lançamento do belíssimo chorinho “Odeon” de Ernesto Nazareth. Um tempo, em que terno e gravata era artigo comum nas visitas aos amigos e que chapéus não faltavam as cabeças elegantes que discutiam o primeiro romance de Mario de Andrade “Amar, Verbo Intransitivo”.
Sim, eram outros tempos, e é preciso não esquecer disso, para entender o final da história.
As pessoas ainda valorizavam o caráter, a boa vontade, ainda se criava galinha no fundo do quintal e as hortas domiciliares não eram modismo naturista. Não haviam tantos prédios, nem carros. As pessoas caminhavam, sem prescrição médica.
Então, voltando as colegas de vovó...
Um dia, a mãe de vovó, sai com suas meninas para visitarem uma prima em Botafogo e foram surpreendidas com uma linda melodia de violinos que embalava o ar. Felizes, caminhavam aproveitando o passeio e perceberam que a música vinha de uma triste realidade. Um homem cego, tocando violino, acompanhado de suas duas filhas, também cegas, que choravam muito, enquanto o povo doava alguns Réis em suas latinhas. A mãe de vovó rapidamente abriu sua bolsa e mandou que suas filhas colocassem moedas nas latinhas. Solidária aquele difícil destino não poderia deixar de ajudar e quando elas se aproximaram das meninas, tiveram sua maior surpresa.
As meninas eram as suas colegas de escola. Ao contarem para a mãe, foram severamente repreendidas com a frase que é um dos slogans da família: “Quem tem vergonha não envergonha os outros, façam como quem não viu!”
No dia seguinte, na escola, as meninas foram falar com vovó e sua irmã. As duas choravam envergonhadas e contaram serem obrigadas pelo pai a fingirem-se de cegas para arrecadar dinheiro, mas que logo parariam com aquilo, pois o pai estava terminando de construir a última, das 10 casas, que ele alugava na vila onde moravam e que ele havia jurado que não precisariam mais. Imploraram que elas não comentassem na escola e fim.
Tá surpreso? Também fiquei quando ouvi...
Ah, safadeza! Ele enriquecia com a esmola da galera...
É, mas podia ser pior, ele podia estar roubando, matando, mas tava só pedindo uma contribuição.
Te lembra alguma coisa?