quinta-feira, 2 de junho de 2011

As histórias que vovó contava...

Vovó tinha duas colegas de escola, que tocavam violino. Segundo ela, tocaram lindas melodias num evento escolar. Eram meninas bonitas, bem tratadas, que sempre iam e vinham acompanhadas pelo elegante pai italiano.
Havia nelas uma tristeza que vovó nunca entendia.
O que poderia fazer com que aquelas meninas, raramente brincassem, ou demonstrassem satisfação pela vida? Era um mistério para ela e suas amigas.
Estamos falando de um tempo em torno do ano de 1927, pelas minhas contas. Portanto, para compreender, é preciso viajar no tempo.
Pra dar uma ajuda, vou lembra-los que a moeda corrente da época era Réis. Também foi o ano em que nasceram Tom Jobim e Divaldo Pereira Franco. Ano de lançamento do belíssimo chorinho “Odeon” de Ernesto Nazareth. Um tempo, em que terno e gravata era artigo comum nas visitas aos amigos e que chapéus não faltavam as cabeças elegantes que discutiam o primeiro romance de Mario de Andrade “Amar, Verbo Intransitivo”.
Sim, eram outros tempos, e é preciso não esquecer disso, para entender o final da história.
As pessoas ainda valorizavam o caráter, a boa vontade, ainda se criava galinha no fundo do quintal e as hortas domiciliares não eram modismo naturista. Não haviam tantos prédios, nem carros. As pessoas caminhavam, sem prescrição médica.
Então, voltando as colegas de vovó...
Um dia, a mãe de vovó, sai com suas meninas para visitarem uma prima em Botafogo e foram surpreendidas com uma linda melodia de violinos que embalava o ar. Felizes, caminhavam aproveitando o passeio e perceberam que a música vinha de uma triste realidade. Um homem cego, tocando violino, acompanhado de suas duas filhas, também cegas, que choravam muito, enquanto o povo doava alguns Réis em suas latinhas. A mãe de vovó rapidamente abriu sua bolsa e mandou que suas filhas colocassem moedas nas latinhas. Solidária aquele difícil destino não poderia deixar de ajudar e quando elas se aproximaram das meninas, tiveram sua maior surpresa.
As meninas eram as suas colegas de escola. Ao contarem para a mãe, foram severamente repreendidas com a frase que é um dos slogans da família: “Quem tem vergonha não envergonha os outros, façam como quem não viu!”
No dia seguinte, na escola, as meninas foram falar com vovó e sua irmã. As duas choravam envergonhadas e contaram serem obrigadas pelo pai a fingirem-se de cegas para arrecadar dinheiro, mas que logo parariam com aquilo, pois o pai estava terminando de construir a última, das 10 casas, que ele alugava na vila onde moravam e que ele havia jurado que não precisariam mais. Imploraram que elas não comentassem na escola e fim.
Tá surpreso? Também fiquei quando ouvi...
Ah, safadeza! Ele enriquecia com a esmola da galera...
É, mas podia ser pior, ele podia estar roubando, matando, mas tava só pedindo uma contribuição.
Te lembra alguma coisa?