sábado, 19 de dezembro de 2009

PERIPATÉTICO(Max Gehringer)


Numa das empresas em que trabalhei, eu fazia parte de um grupo de
treinadores voluntários.
Éramos coordenados pelo chefe de treinamento, o professor Lima, e tínhamos
até um lema:
"Para poder ensinar, antes é preciso aprender" (copiado, se bem me recordo,
de uma literatura do Senai).
Um dia, nos reunimos para discutir a melhor forma de ministrar um curso
para cerca de 200 funcionários.
Estava claro que o método convencional - botar todo mundo numa sala - não
iria funcionar, já que o professor insistia na necessidade da in teração,
impraticável com um público daquele tamanho.
Como sempre acontece nessas reuniões, a imaginação voou longe do objetiv o,
até que, lá pelas tantas, uma colega propôs usarmos um trecho do Sermão da
Montanha como tema do evento. E o professor, que até ali estava meio quieto,
respondeu de primeira. Aliás, pensou alto:
- Jesus era peripatético.
Seguiu-se uma constrangida troca de olhares, mas, antes que o hiato pudesse
ser quebrado por alguém com coragem para retrucar a afronta, dona Dirce, a
secretária, interrompeu a reunião para dizer que o gerente de RH precisava
falar urgentemente com o professor. E lá se foi ele, deixando a sala à
vontade para conspirar.
- N&atild e;o sei vocês, mas eu achei esse comentário de extremo mau gosto - disse
a Laura.
- Eu nem diria de mau gosto, Laura. Eu diria ofensivo mesmo - emendou o
Jorge,
para acrescentar que estava chocado, no que foi amparado por um silêncio< BR>geral.
- Talvez o professor não queira misturar religião com treinamento. Mas eu
até vejo
uma razão para isso - ponderou o Sales, que era o mais ponderado de todos.
- Que é isso, Sales? Que razão?
- Bom, para mim, é óbvio que ele é ateu.
- Não diga!
- Digo. Quer dizer, é um direito dele. Mas daí a desrespeitar a
religiosidade alheia...
Cheios de fúria, malhamos o professor durante uns dez minutos e, quando já o
estávamos sentenciando à fogueira eterna, ele retornou. Mas nem percebeu a
hostilidade. J á entrou falando: - Então, como ia dizendo, podíamos montar várias salas
separadas e colocar umas 20 pessoas em cada uma. É verdade que cada treinador teria

de repetir a mesma apresentação várias vezes, mas... Por que vocês estão me olhando

desse jeito?
- Bom, falando em nome do grupo, professor, essa coisa aí de peripatético, veja bem...
- Certo! Foi daí que me veio a idéia. Jesus Se locomovia para fazer pregações,
como os filósofos também faziam, ao orientar Seus discípulos. Mas Jesus foi o
Mestre dos Mestres; portanto, a sugestão de usar o Sermão da Montanha foi muito
feliz. Teríamos uma bela mensagem moral e o deslocamento físico... Mas que
cara é essa? Peripatético quer dizer "o que ensina caminhando".
E nós ali, encolhidos de vergonha.
Bastaria um de nós ter tido a humildade de confessar que desconhecia a pal avra,

que o resto concordaria e tudo se resolveria com uma simples ida ao dicionário.
Isto é, para poder ensinar, antes era preciso aprender.




Finalmente, aprendemos duas coisas.

A primeira é: o fato de todos estarem de acordo não transforma o falso em
verdadeiro.
E a segunda é: que a sabedoria tende a provocar discórdia, mas a ignorância é
quase sempre unânime.

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