
Se você pensa que sabe; que a vida lhe mostre o quanto não sabe. Se
você é muito simpático mas leva meia hora para concluir seu
pensamento; que a vida lhe ensine que explica melhor o seu problema,
aquele que começa pelo fim. Se você faz exames demais; que a vida lhe
ensine que doença é como esposa ciumenta: se procurar demais, acaba
achando. Se você pensa que os outros é que sempre são isso ou
aquilo; que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo.
Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco;
que a vida lhe ensine a aceitar o conflito como condição lúdica da
existência. Tanto mais lúdica quanto mais complexa. Tanto mais
complexa quanto mais consciente. Tanto mais consciente quanto mais
difícil. Tanto mais difícil quanto mais grandiosa. Se você pensa que
disponibilidade com paz não é felicidade; que a vida lhe ensine a
aproveitar os raros momentos em que ela (a paz) surge.
Que a vida ensine a cada menino a seguir o cristal que leva dentro,
sua bússola existencial não revelada, sua percepção não verbalizável
das coisas, sua capacidade de prosseguir com o que lhe é peculiar e
próprio, por mais que pareçam úteis e eficazes as coisas que a
ele, no fundo, não soam como tais, embora façam aparente sentido e se
apresentem tão sedutoras quanto enganosas.
Que a mãe manhe. Que o pai paie. Que o sol sole. Que o filho filhe.
Que a árvore arvore. Que o ninho aninhe. Que o mar mare. Que a cor
core. Que o abraço abrace. Que o perdão perdoe. Que tudo vire verbo e
verbe. Verde. Como a esperança. Pois, do jeito que o mundo vai, dá
vontade de apagar e começar tudo de novo. A vida é substantiva, nós
é que somos adjetivos.
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